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maio 9

Nota de repúdio aos fatos que ocorreram no Consup/IFRS em 23/4/19

Postado por: admin | Postado em: Ações Inclusivas | Não Comentada

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Os Núcleos de Estudos Afro Brasileiros e Indígenas (NEABI) e os Núcleos de Ações Afirmativas (NAAF) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), vem manifestar seu repúdio aos fatos ocorridos durante a segunda reunião ordinária do Conselho Superior (CONSUP) do IFRS, no dia 23 de abril do presente ano, no campus Ibirubá do IFRS. Corroboramos a nota já emitida pelo campus Osório e solicitamos à gestão do IFRS que apure o caso também na esfera administrativa, para que sejam tomadas as medidas necessárias e posturas inadequadas ao serviço público não sejam naturalizadas.

Desde que a costa africana foi invadida e colonizada por europeus no século XV, durante quase quatro séculos, o Brasil foi uma das nações que mais traficou mão de obra escravizada. Estima-se que até 13 milhões de africanos podem ter sido arrancados de seu continente e trazidos para cá com requintes de crueldade, tais como: sequestro, tortura e viagens em condições desumanas nos porões de navios negreiros, separação das famílias e povos; rejeições de culturas diversas; impedimento de cultos afro-religiosos; entre outros. Há quem se questione se não houvera resistência frente tamanha atrocidade, e para isso devemos recordar as inúmeras estratégias de resistência, inclusive revoltas lideradas por escravizados africanos, que formavam quilombos e se auto organizavam. No Brasil de 2019, mais de cento e trinta anos após a dita abolição da escravatura, ainda sofremos cruelmente com os reflexos deste que foi um dos maiores crimes da Humanidade. Por conta desta construção, o processo histórico e material se firma em um sistema estrutural e estruturante que perpetua a condição da população negra como inferior em uma escala social desigual. Estes fatos comprovados a partir de uma breve análise dos números que indicam a ausência de homens e mulheres descendentes de africanos que foram escravizados no Brasil em determinadas profissões e ofícios. Fato que fica evidente quando comparamos a população negra do Brasil, 55,4%, segundo o último censo do IBGE, com o número de professores universitários negros, 16% segundo o INEP . As estatísticas se tornam mais alarmantes quando verificamos que a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 23,1% (atlas violência/IPEA) . No documento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de 2014, seu então presidente, Sergei Suarez Dillon Soares corrobora nosso ponto de vista, ao afirmar que o período de escravidão possui papel significativo na perpetuação do racismo perverso em nosso país na atualidade, além de ser mascarado e ao mesmo tempo potencializado pela mito da democracia racial.

Ainda são recentes as construções das primeiras políticas de ações afirmativas específicas para a população negra. Tais políticas querem, de alguma forma e ainda timidamente, reparar a injustiça histórica a que o Estado brasileiro sujeitou esses povos e seus descendentes. Evidenciamos as mazelas sociais, mediante a falta de oportunidades culturais, educacionais e econômicas. As políticas de ações afirmativas, popularmente conhecidas como políticas de cotas, possibilitam o acesso à Educação de qualidade, a inserção no mercado de trabalho e visibilidade às contribuições da população negra para a construção do país.

Nesse contexto de racismo estrutural, é inadmissível considerar “coitadismo” a busca por direitos da parcela majoritária da população que é sub-representada nos espaços de decisão e até inexistente em alguns setores institucionais. Soa trágico que um dirigente de uma instituição, criada para atender a classe trabalhadora, em que as políticas de ações afirmativas devem ser respeitadas e implementadas, tenha se portado de forma tão inadequada. Parece desconhecer a finalidade da instituição a qual serve e não valorizar a luta empreendida pelos grupos sociais que reivindicam equidade e direitos que têm sido historicamente negados, em benefício, muitas vezes, da manutenção de privilégios dos grupos hegemônicos (brancos), que insistem em reproduzir os lugares sociais do Brasil Colonial, a Casa Grande e a Senzala. Classificar a luta de negras e negros por igualdade de direitos de “coitadismo” é desconsiderar (ou desconhecer) a enorme dívida social que o Estado brasileiro tem com esses sujeitos. Mais do que isso, é pensar que tudo é questão de mérito e desprezar, para dizer o mínimo, que as bases para a autonomia dos descendentes da diáspora africana foram negadas desde sempre e que esse é um problema de todos os brasileiros e brasileiras pois, como diz Angela Davis, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

Bento Gonçalves, 07 de maio de 2019.

 

Assinam a nota os seguintes Núcleos de Ações Afirmativas do IFRS:

NAAF IFRS Alvorada
Janaína de Nardin

NEABI IFRS Canoas
Paulo R. Faber Tavares Jr.

NEABI IFRS Caxias do Sul
Juliana dos Santos

NEABI IFRS Erechim
Priscilla Pereira dos Santos

NEABI IFRS Feliz
Leonara R. Julião dos Santos

NEABI IFRS Ibirubá
Maurício Lopes Lima

NEABI IFRS Osório
Estêvão da Fontoura Haeser

NEABI IFRS Porto Alegre
Helen Scorsatto Ortiz

NEABI IFRS Restinga
Alexandra Domingues

NEABI IFRS Rio Grande
Eliza Terres Camargo

NAAF IFRS Rolante
Luciano Corsino

NEABI IFRS Sertão
Rafael Sapiência Torreão

NAAF IFRS Vacaria
Rosemeri Barreto Argenta

NAAF IFRS Viamão
Carlos Robério Garay Correa

NAAF Reitoria
Rosângela Ferreira

 

Documento original – Nota de repúdio aos fatos que ocorreram no Consup/IFRS em 23/4/19

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